image (3).png

Desenvolvimento e implementação de um sistema em software livre para a gestão da certificação participativa na Rede Ecovida de Agroecologia#

Development and Implementation of a Free Software System for Participatory Certification Management in the Rede Ecovida de Agroecologia#


MOTTER, Cristiano1; MOSCHEN, Jovana de Lucena2; PONTES, Nadia Coelho3; GONZALEZ, Alejandro4; ROSA, Joaquim Martins da5; DORNELLES, Carla Patrícia6

1 Centro Ecológico, motter.cristiano@gmail.com ; 2 OPAC Ecovida, jomoschen@gmail.com ; 3Tekoporã, nadia@tekopora.top ; 4Tekoporã, alejandro.gonzalez@tekopora.top ; 5Centro Ecológico, joaquimmrd@gmail.com ; 6Centro Ecológico, dornelles_florestal@yahoo.com.br

RESUMO EXPANDIDO TÉCNICO-CIENTÍFICO#

Eixo Temático: Inovações Camponesas e Tecnologias Sociais promovendo agroecologia.#

Resumo#

O presente trabalho teve como objetivo apresentar o processo de transição tecnológica vivenciado pela Rede Ecovida, desde os desafios iniciais de gestão até a concepção e desenvolvimento do novo sistema Speco, baseado no Tryton ERP. A metodologia do trabalho foi dividida em 5 etapas: (1) Diagnóstico das ferramentas necessárias e que estavam em uso; (2) Definição de uma estrutura para o desenvolvimento tecnológico participativo; (3) Montagem de uma instância para testes e validação do sistema; (4) Condução de oficinas de formação e socialização das ferramentas; e (5) Migração das informações da Rede Ecovida, e lançamento do sistema de gestão Speco. A construção do Ecossistema Digital da Rede Ecovida foi um processo inerentemente participativo. Muito distante dos processos tradicionais de desenvolvimento de software. O trabalho demostra a possibilidade de construção tecnológica adaptativa focada no processo de aprendizado dos agentes envolvidos.

Palavras-chave: ecossistema digital; open sourse; desenvolvimento digital; tecnologia social; agricultura orgânica.

Keywords: digital ecosystem; open sourse; digital development; social technology; organic farming.

Introdução#

A Rede Ecovida de Agroecologia é um espaço coletivo de articulação entre famílias agricultoras, técnicos e consumidores, formada por diversos grupos, associações e cooperativas que atuam em diferentes regiões dos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná, organizados por meio de núcleos territoriais. Desde sua criação, em 1998, a Rede tem como um de seus eixos de atuação o processo que passou a ser conhecido como certificação participativa de produtos ecológicos. Em seus primeiros anos, a Rede Ecovida integrou os debates nacionais do GAO – Grupo de Agricultura Orgânica –, contribuindo com a formulação da legislação brasileira para produtos orgânicos. Essa legislação culminou na publicação da Lei nº 10.831, de 23 de dezembro de 2003, que foi regulamentada e entrou em vigor em 2010, estabelecendo critérios legais para a certificação orgânica no Brasil. A partir dessa regulamentação, a Rede Ecovida passou a ser reconhecida oficialmente como um SPG – Sistema Participativo de Garantia, e precisou realizar o credenciamento do seu OPAC – Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade – junto ao Ministério da Agricultura, garantindo assim a legalidade da certificação dos produtos orgânicos produzidos por milhares de famílias organizadas.

A certificação participativa na Rede Ecovida envolve a gestão de um conjunto de documentos e dados exigidos por lei, como plano de manejo, caderno de campo, cadastro de agroindústria, certificado, entre outros. Esses instrumentos, somados aos processos de verificação entre famílias e núcleos, exigem um alto nível de organização para assegurar a credibilidade dos produtos e manter atualizados os dados junto ao Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos – CNPO. Com o crescimento da Rede e o volume de informações a serem administradas, o uso de planilhas eletrônicas logo se mostrou insuficiente para garantir eficiência e rastreabilidade das informações. A partir disso, iniciou-se a criação de um próprio sistema informatizado, com base nas normas da Rede e nas necessidades identificadas pelos núcleos e pelo OPAC. O sistema informatizado possibilitou avanços importantes na emissão de certificados e na organização dos documentos, mas, ao longo dos anos, passaram a surgir dificuldades na manutenção do código e na expansão das funcionalidades, o que fez surgir uma nova necessidade no desenvolvimento de ferramentas na Rede Ecovida.

Ao trazer essa experiência, pretende-se contribuir com o debate sobre tecnologias sociais aplicadas à certificação participativa, além de apontar caminhos para outras redes e organizações que buscam soluções livres, colaborativas e adaptadas à realidade da agricultura familiar agroecológica.

Diante desse contexto, este artigo tem como objetivo apresentar o processo de transição tecnológica vivenciado pela Rede Ecovida, desde os desafios iniciais de gestão até a concepção e desenvolvimento do novo sistema Speco, baseado no Tryton ERP.

Metodologia#

Em meados de 2022, a Rede Ecovida iniciou uma parceria com um time de tecnologistas, que veio a formar a startup Tekoporã. Nessa ocasião, foi solicitado um diagnóstico inicial no sistema em funcionamento da Rede Ecovida, com a finalidade de conhecer o código-fonte existente e propor a melhor solução técnica para as demandas apresentadas pelo OPAC da Rede. A proposta feita pela equipe de TI foi a construção de um Ecossistema Digital integrado (ECOVIDA, 2022), considerando a necessidade de comunicação interna e externa da Rede, a apresentação pública de dados e uma ferramenta robusta para a gestão e guarda das informações e documentos.

A metodologia do trabalho pode ser dividida em 5 etapas: (1) Diagnóstico das ferramentas necessárias e que estavam em uso; (2) Definição de uma estrutura para o desenvolvimento tecnológico participativo; (3) Montagem de uma instância para testes e validação do sistema; (4) Condução de oficinas de formação e socialização das ferramentas; e (5) Migração das informações da Rede Ecovida, e lançamento do sistema de gestão Speco.

Nesse sentido, três ferramentas foram propostas: (1) o site da Rede, programado com o framework Hugo1 , utilizando o motor Goldmark2 para conversão de conteúdo em Markdown3 para HTML; (2) uma ferramenta de fórum baseada no Discourse4 , uma plataforma de discussão; e (3) um novo módulo para gestão de dados e documentos da Rede, baseado no framework Tryton ERP5 (MOTAHAR, 2013). Todas essas ferramentas foram escolhidas não apenas por atenderem às necessidades identificadas, mas também por serem construídas em código aberto, respeitando as quatro liberdades do software livre — ou seja, podem ser executadas, estudadas e modificadas, copiadas e aperfeiçoadas (GAIA, 2017).

Uma vez definidas as ferramentas a serem utilizadas, estabeleceu-se a realização de reuniões semanais para definição dos requisitos a serem planejados, bem como para os testes e a aprovação das funcionalidades, passando por cada tela e função dos sistemas. Além das reuniões, também foi definido que todas as conversas e solicitações deveriam ser registradas no fórum, a partir de sua existência, em uma categoria criada especialmente para o desenvolvimento, mantendo-se assim o histórico completo do diálogo. Dessa forma, estruturou-se um processo de desenvolvimento participativo das ferramentas entre os desenvolvedores e o OPAC da Rede (AGUIAR, 2024).

Após atingir um certo nível de desenvolvimento do novo módulo baseado no Tryton ERP, foi criada uma instância de testes com acesso ampliado para mais pessoas que integram a Rede. No segundo semestre de 2024, foram realizadas 11 oficinas virtuais com as coordenações dos 33 núcleos que compõem a Rede Ecovida, com o objetivo de socializar a nova ferramenta e abrir espaço para sugestões e melhoria contínua. Uma das sugestões oriundas do diálogo nessas oficinas foi a criação de um tutorial em formato de vídeo, resultando em mais de 20 vídeos, com duração entre 15 e 30 minutos de conteúdo exclusivo para os núcleos acessarem virtualmente. Além das oficinas virtuais, também foram realizadas duas oficinas presenciais em Lages (SC) com 32 participantes em maio de 2025, durante a plenária geral da Rede — dinâmica já estabelecida desde o surgimento da Ecovida (MEIRELLES, 2016).

Por fim, fez-se a migração dos dados que estavam cadastrados no sistema anterior por meio de uma estrutura de Extração, Transformação e Carregamento de dados, com o objetivo de resguardar o histórico de 7 anos de uso desse sistema, e permitir a rastreabilidade dos dados de entrada no atual sistema.

1 framework Hugo: é uma plataforma poderosa para gerar e compilar sites com velocidade.

2 Goldmark: é um processador usado para converter texto de Markdown para HTML.

3 Markdown: é uma linguagem de marcação leve com uma sintaxe simples e fácil de aprender.

4 Discourse: é uma plataforma de fórum estruturada para conversações.

5 framework Tryton ERP: é uma plataforma construída em três camadas focado em enterprise resource planning ERP – Sistema de Gestão Empresarial.

Resultados e Discussão#

Do ponto de vista tecnológico, o trabalho alcançou o desenvolvimento das 3 ferramentas livres customizadas para a Rede Ecovida, como demostra a Tabela 1.

Tabela 1: Ferramentas livres customizadas para a Rede Ecovida.

Nome Ferramenta Função

Sítio Web
Hugo Divulgação de conteúdos e centralização das informações da Rede Ecovida. https://ecovida.org.br/
Fórum Discourse Comunicação interna e externa da Rede. Sistematização de discussões. https://forum.ecovida.org.br/
Speco Tryton ERP Gestão dos processos de certificação orgânica. Armazenamento e visualização dos dados de produção. https://speco.ecovida.org.br/

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

O sítio web desenvolvido em Hugo está dividido em 6 partes: Nossas Ações, Notícias, Publicações, Encontro Ampliado, Manuais e Informações. As seções de Nossas Ações, Notícias e Encontro Ampliado possuem um espaço de discussão no fórum, de forma a estimular a criação de conteúdo colaborativo e participativo. A alimentação do site pode ser feita através de um conector entre o site e a plataforma de colaboração em nuvem de código aberto Nextcloud. Adicionalmente, iniciou-se o desenvolvimento de um conector de Discourse a Hugo, de forma a automatizar a conexão dos conteúdos do fórum para o sítio web.

Por sua vez, o fórum de discussões, instância customizada de um fórum Discourse, conta atualmente com 9 categorias públicas e 11 categorias internas da Rede Ecovida. Dessas, 6 são para discussões dos grupos de trabalho, a saber: agroecologia; certificação; comunicação; insumos agrícolas; sementes e mudas; e mulheres e gênero. As outras 5 categorias internas são referentes às questões de Suporte de TI, uso do Sistema Speco, e gestão e escrita de novos projetos.

Finalmente, o sistema de gestão Speco está desenvolvido em 7 módulos de Tryton ERP, conforme demonstra Tabela 2.

Tabela 2: Módulos do sistema de gestão Speco.

Módulos Descrição
1
country_br
Especificidades das localizações brasileiras a serem utilizadas no sistema. Estrutura de estados, municípios e endereços.
2
party_br
Especificidades dos cadastros de pessoas no Brasil. Estrutura de documentos e registros legais.
3
speco
Gestão dos cadastros e processos relacionados à certificação orgânica participativa. Estruturado em núcleos, grupos, famílias, produções, documentos, certificações e configurações.
4 speco_annuity Gestão financeira de SPGs adaptado ao contexto da Rede Ecovida. Estruturado em anuidades de núcleos, anuidades OPAC e configurações.
5 speco_notifications Configuração das notificações do sistema. Construído sobre essa funcionalidade básica do Tryton ERP.
6 speco_ecovida Configuração das especificidades do sistema de gestão para a Rede Ecovida. Centralização dos arquivos personalizados para esse OPAC.
7 speco_opac_import Estrutura das adaptações para a conexão das importações de dados do sistema anterior da OPAC.

Fonte: Elaborado pelo autor (2025).

No módulo “Speco” está centralizando a maior parte das funcionalidades do sistema, incluindo os cadastros de famílias, produtos, unidades produtivas e suas produções, o envio de documentos para certificação, tais como: Planos de Manejo Orgânico (PMO) e Documentos de Aprovação de Conformidade Orgânica (DAC). Esse módulo pode ser dividido em módulos menores, de forma a promover a escalabilidade do sistema.

Nesse sentido, foram desenvolvidos testes unitários e funcionais para todos os módulos, com infraestrutura de testagem automatizada via Rake (RAKE, 2025), visando facilitar a integração de novos desenvolvedores sem comprometer a qualidade do código. As informações do Speco estão estruturadas para integração ao sítio web, permitindo rastreabilidade dos certificados, visualização de dados em painéis gráficos e inclusão de um mapa interativo com a localização das famílias e unidades produtivas da Rede, funcionalidades já iniciadas no sistema atual. Destaca-se que todas as ferramentas estão hospedadas em um servidor autogestionado pela equipe, localizado em São Paulo para reduzir a latência, e as discussões de co-construção do ecossistema consideraram aspectos como computação em nuvem e consumo de recursos de centros de dados.

Além dos desenvolvimentos técnicos, considera-se que um importante resultado deste trabalho foi a implementação desses sistemas livres e co-construídos como ferramentas de trabalho cotidianos do funcionamento da Rede Ecovida. No sistema Speco, além dos administradores, estão ativos atualmente 91 usuários dos Núcleos. Essas pessoas utilizam o sistema para executarem processos relacionados à certificação, e têm a oportunidade de discutir e elaborar reflexões acerca dessa ferramenta.

Conclusões#

A construção do Ecossistema Digital da Rede Ecovida foi um processo inerentemente participativo. Muito distante dos processos tradicionais de desenvolvimento de software, que prezam pela agilidade e têm foco unicamente nos resultados entregues, a experiência desse trabalho mostra a possibilidade de construção tecnológica adaptativa e focada no processo de aprendizado dos agentes envolvidos.

Os usuários da OPAC estiveram no centro das decisões de desenvolvimento, e os desenvolvedores tiveram a chance e o desafio de facilitar a conceituação de um sistema por seus próprios usuários. Esse processo configura o início de uma jornada para soberania digital, que está alinhada aos princípios da agroecologia.

Referências bibliográficas#

AGUIAR, Carla Silva Rocha et al. Colaboração multissetorial para desenvolvimento e manutenção de soluções tecnológicas de participação: o caso do Brasil Participativo. Escola Digital da Administração Pública. 2024. Disponível em: https://repositorio.enap.gov.br/handle/1/7993 . Acesso em: 22 julh. 2025.

ECOVIDA, Rede de Agroecologia. Speco. 2023. Disponível em: https://ecovida.org.br/docs/manual_speco/ . Acesso em: 21 julh. 2025.

ECOVIDA, Rede de Agroecologia. Ecossistema Digital. 2022. Disponível em: https://ecovida.org.br/docs/manual_site/diagrama_sitio/ . Acesso em: 22 julh. 2025.

GAIA, Felipe N. et al. Software Livre Direito Autoral. ResearchGate, v. 28, 2017. Disponível em: https://www.researchgate.net/profile/Lucas-Vella/publication/268007839_Software_Livre_Direito_Autoral/links/54ff6a8a0cf2eaf210ba2514/Software-Livre-Direito-Autoral.pdf . Acesso em: 22 julh. 2025.

MEIRELLES, Laércio. A Rede Ecovida de Agroecologia. Carta Maior. Centro Ecológico. 2016. Disponível em: https://vozes.centroecologico.org.br/wp-content/uploads/2022/09/A-Rede-Ecovida-de-Agroecologia-marco-de-2016.pdf . Acesso em: 22 julh. 2025.

MOTAHAR, S. M. et al. An applied approach to teach hospital information systems development using an open source ERP framework. Procedia Technology, v. 11, p. 1259-1265, 2013. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S2212017313004763 . Acesso em: 21 julh. 2025.

RAKE. Rubi Make: a Ruby make-like build utility. ©  GitHub, Inc. Disponível em: https://ruby.github.io/rake/index.html . Acesso em: 24 jul. 2025.

Artigo submetido e apresentado no 13º Congresso Brasileiro de Agroecologia. Será publicado em breve nos Cadernos de Agroecologia – ISSN 2236-7934 - Anais do XIII Congresso Brasileiro de Agroecologia, Juazeiro, Bahia - v. XX, n. 1, 202X
Link de acesso: …

Publicado no site em 23/01/2026.

image (2).png